quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Samba-enredo 2012 - Unidos do Porto da Pedra


"Para o deleite e a emoção no Carnaval", o samba de Vadinho, Fernando "Macaco", Tião Califórnia, Cici Maravilha, Denil e Oscar Bessa será a trilha do desfile da Porto da Pedra sobre o iogurte. Era a aposta do Carnaval de Avenida e um dos poucos sambas que conseguiram transformar a fria e pouco carnavalesca sinopse da escola numa composição agradável e até mesmo com toques poéticos.

Depois de escolhido o samba, a escola realizou algumas mudanças na letra que o melhoraram consideravelmente. Os versos "Dá nome a sobremesa popular", que fazia um trocadilho com Danone, patrocinadora da escola, e "ativa as funções vitais", que pode se associar à necessidades fisiológicas, foram cortados. O único verso duvidoso mantido foi o último, "iogurte é leite, tem saúde e muito mais", que provavelmente foi uma exigência do patrocinador, já que estava presente em todos os sambas concorrentes. "Seio jorrando amor" também é uma passagem um tanto quanto curiosa. A primeira parte é o melhor momento textual do samba, quando são lembradas histórias e lendas envolvendo o leite, deixando o enredo mais interessante.

Apesar do enredo em si não ser dos melhores, está bem contado e é de fácil entendimento a partir do samba. A primeira parte trata do leite e sua simbologia e relevância mundial e a segunda do alimento como é consumido nos dias de hoje. O refrão do meio consegue retratar, de forma bem sutil, alguns pontos esdrúxulos da sinopse, como os alimentos derivados do leite.

A melodia é o mais interessante desta obra. Alterna momentos mais explosivos com outros mais dolentes. O refrão principal é forte e empolgante. Já a primeira parte é mais melodiosa, com notas alongadas e boas variações. Aliás, uma das qualidades deste samba é não ser constante, sempre alternando os desenhos melódicos. O único momento mais arrastado era justamente nos versos eliminados na versão oficial. E na nova versão alguns trechos também tiveram sua melodia modificada, mas a escola não fez nenhum tipo de divulgação do áudio oficial, então não é possível fazer uma análise mais profunda. Mas no curto vídeo do coro da escola na gravação do CD, é possível ver que houve melhora. Veja o vídeo aqui.

A Porto da Pedra foi muito criticada (inclusive por este blog) quando divulgou seu enredo e sua sinopse. Um desfile patrocinado sempre torna sua elaboração menos natural, com interferências e imposições dos patrocinadores. A sinopse pouco poética e muito objetiva, aliada ao tema pouco literário, contribuiram para essa "torção de nariz" generalizada. Apesar do samba não se destacar na safra, alivia um pouco a tensão, já que é uma boa obra e tende a crescer com as modificações. Ainda não foi o suficiente para a escola ficar de bem com os sambistas, mas ao menos está fazendo o possível para o iogurte não azedar.

O áudio abaixo ainda é o antigo, na versão dos compositores. A letra já está na versão oficial, com as modificações.

UNIDOS DO PORTO DA PEDRA - 2012




Enredo: Da seiva materna ao equilíbrio da vida
Compositores: Vadinho, Fernando "Macaco", Tião Califórnia, Cici Maravilha, Denil e Oscar Bessa

Poema à vida e ao seio jorrando amor
A seiva materna
Meu Porto da Pedra alimentou
Hera gera o caminho das estrelas
Mãe loba amamentou o grande império
Mistério no deserto da solidão
O mercador viu a transformação
Do leite em primeira iguaria
A fé se envolveu e foi saborear
Na história, a humanidade vive a cultuar
A dádiva que fez o animal sagrado
Fermentou fartura e saber
Fonte rica de prazer

No calor dessa receita, deixa provar
A combinação perfeita ao paladar
A essência é derivada da mistura dos sabores
É no mel que se adoça a magia dessas cores


Seguiu o alimento vencendo batalhas
Esse doce sabor pelo mundo
Com o tempo rompendo muralhas
Brilhou à luz da civilização
Pelos mares navegou
Embalando a evolução
Leveza, o equilíbrio se traduz em beleza
Do dia a dia me refaz
Iogurte é leite, tem saúde e muito mais

Vem no ritmo do tigre de São Gonçalo
Alimenta seu povo apaixonado
Cada porção traz um cuidado especial
Para o deleite e a emoção no carnaval

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Samba-enredo 2012 - São Clemente


A aventura musical da São Clemente será embalada pelo samba de Flavinho Segal, FM, Grey, Guguinha, Marcos Antunes, Ricardo Góes, Serginho Machado e Vânia. O Carnaval de Avenida destacou a obra como uma das melhores da safra da preta e amarela, mas entre os finalistas era a menos cotada como possível vencedora.

A letra está longe de ser um primor poético, mas cumpre bem a sua função e tem a irreverência típica da agremiação. Apesar de ainda ser um sopro do que a São Clemente já foi, é bom ver a escola novamente apostar num samba que tenha a sua cara. Logo no refrão já é possível ver que não se trata do samba de uma escola qualquer. "Tem bububu no bobobó/ sem sassarico é o 'ó'/ bumbum de fora, pernas pro ar/ Bravo, a São Clemente vai passar" são os versos que abrem a obra clementiana. Muito criticado por alguns, é bastante popular e pode "pegar". O restante do samba é textualmente correto, tendo no refrão central um dos momentos mais expressivos. A segunda parte conta ainda com um infame trocadilho no verso "Puxa, aqui Paris é avenida".

Musicais relacionados na sinopse, como "O Fantasma da Ópera", "A Noviça Rebelde" e "O Violinista no Telhado", são facilmente identificados na letra, apesar da boa sinopse apresentada pela escola merecer um pouco mais de ousadia e criatividade. Apesar de não ser uma letra certinha, ficou um pouco óbvia. A "aventura musical" não tem, no samba, uma linha sequencial definida. Vai narrando imagens baseadas na sinopse, mas que não se conectam. A abordagem poderia ser um pouco mais profunda, com uma letra mais inteligente e elaborada.

A melodia é bem gostosa de ouvir, pra cima e animada. O refrão do meio é, novamente, o grande destaque nesse aspecto, além do principal, que é do tipo que "gruda". O começo da primeira parte também é melodicamente forte. No restante, poucas variações. Simples e leve, com a cara da São Clemente, que não costuma apostar em melodias muito elaboradas ou letras rebuscadas.

Na bela safra de 2012, o samba não se destaca tanto, mas o "bububu no bobobó" já está dando o que falar. Longe de ser apontada como favorita ao título, a São Clemente levará para a Avenida um samba despretensioso, pra brincar e sassaricar no Carnaval. Desfilando por dois anos consecutivos no Grupo Especial pela primeira vez em anos, a escola de Botafogo, que não é mais em Botafogo, tem como meta tentar a permanência, contrariando todas as perspectivas.

SÃO CLEMENTE - 2012




Enredo: Uma aventura musical na Sapucaí
Compositores: Flavinho Segal, FM, Grey, Guguinha, Marcos Antunes, Ricardo Góes, Serginho Machado e Vânia

Prepare o seu coração
É pura emoção
A sirene acabou de tocar (U-lá-lá)
A orquestra começou
E entoou o meu cantar
Um violino anuncia
Vem viajar na magia
Do meu cabaré, com samba no pé
Vem exibir, pode aplaudir
Será que é sonho meu?
Sucesso aqui vou eu

Põe a máscara pra mim
Vem comigo, a hora é esta
Não sei viver sem você
És o artista, faz a nossa festa


De tudo aconteceu
Puxa! Aqui Paris é avenida
Hoje o malandro sou eu
Vi a tristeza feliz da vida
Dei um susto, o fantasma sumiu ( Búuu )
Sou irreverente
Se o samba empolgou, virou carnaval
Nossa aventura musical
Noviça dançou ao som da canção
E conquistou meu coração

Tem bububu no bobobó
Sem sassarico é o “ó”
Bumbum de fora, pernas pro ar
Bravo!!! A São Clemente vai passar

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Samba-enredo 2012 - Portela


O que começou como um fenômeno da Internet tem tudo para ser um dos grandes sambas de enredo do Carnaval carioca. Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo são os autores do samba da Portela para 2012. Era a aposta do Carnaval de Avenida como favorito. Era a aposta de todos os sambistas que viam nessa obra um sopro de esperança, não só para a própria Portela, mas para o gênero samba-enredo.

A letra é uma poesia, como há muito não se via. Falando sobre as festas da Bahia, tendo Clara Nunes como guia, o enredo consegue ser assimilado facilmente. Possui uma estrutura diferenciada, com três refrões, sendo o primeiro deles um dos momentos de maior inspiração na safra de 2012: "No mar/ procissão dos navegantes/ eu também sou almirante/ de nossa senhora Iemanjá". Uma brilhante sacada para mostrar a equivalência entre Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá. O final do samba é outro excelente trecho, que faz, praticamente, um resumo do enredo. A obra se encerra de forma magistral: "Vestido de azul e branco/ eu venho estender o nosso manto/ aos meus santos do samba que são orixás".

A melodia remete a composições antigas, sem variações mirabolantes, porém bem trabalhadas e bastante agradáveis. Os dois refrões internos se destacam e se parecem, tendo um prolongamento no primeiro verso e sendo mais rápidos nos demais. O ritmo da terceira estrofe, com versos bem curtinhos, tem um toque afro bem interessante. O alerta para a harmonia da escola fica por conta do refrão principal, que é a parte mais acelerada. Isso dificulta um pouco o canto, sobretudo em "Madureira sobe o pelô". Quando cantado em coro, pode acabar embolando um pouco.

Alguns ajustes já foram feitos na melodia original. Em certos trechos o tom foi levantado, visando enfatizar a obra e até mesmo facilitar o canto. A letra também sofreu algumas pequena alterações. O áudio abaixo já conta com todas as mudanças, além de ser interpretado pelo intérprete oficial da escola, Gilsinho.

No mais, é apreciar este verdadeiro sambaço da Portela, que há muitos anos não apresentava um samba digno de sua majestosa safra. Independente do que aconteça no dia do desfile, certamente é um dos sambas que ficará marcado no Carnaval 2012. E, quem sabe, sirva de exemplo para que outras escolas também se libertem das convenções e engessamentos dos sambas de enredo atuais. Na brilhante safra de 2012, a obra da Águia de Madureira já vem sendo considerada por muitos como a melhor do ano.

PORTELA - 2012




Enredo: ...E o povo na rua cantando é feito uma reza, um ritual...
Compositores: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo

Meu rei
Senhor do Bonfim alumia
Os caminhos da Portela
Que eu guardo no meu patuá
Eu vim na proteção dos meus guias
Com Clara guerreira à Bahia
Cheguei, eu cheguei pra festejar
Deixa lavar nos altares e terreiros
Tem jarro com água de cheiro
Vou jogar flores no mar

No mar
Procissão dos navegantes
Eu também sou almirante
De nossa senhora Iemanjá


Vou no gongá
Bater tambor
Rezo no altar
Levo o andor
Vem chegando os batuqueiros
Desce a ladeira, meu amor
Que a patuscada começou
Eu vim pra rua
Onde o samba de roda chegou

Iaiá
De saia rendada em cetim
Bota o tempero na festa
Oi, tem abará e quindim


Portela cheia de encantos
Acolhe a Bahia em seu canto
Com festas, rezas, rituais
Vestido de azul e branco
Eu venho estender o nosso manto
Aos meus santos do samba que são Orixás

Madureira sobe o Pelô... Tem capoeira
Na batida do tambor... Samba Ioiô
Rola o toque de Olodum... Lá na Ribeira
A Bahia me chamou

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Samba-enredo 2012 - Acadêmicos do Salgueiro


O cordel salgueirense será embalado pelo samba dos compositores Diego Tavares, Dílson Marimba, Domingos PS, Marcelo Motta, Ribeirinho e Tico do Gato. Era a obra preferida pela maioria das pessoas, fato demonstrado na final das eliminatórias, quando o vencedor foi o mais cantado na quadra, e o que mais empolgou. Era o samba em que o Carnaval de Avenida apostava como favorito.

Como a maioria dos sambas que falam sobre o Nordeste, este também possui diversas expressões típicas, como "vixe maria", "não se avexe não", "oh meu padinho", etc. A letra não é tão poética, até porque o enredo não pede isso, mas possui boas sacadas e riqueza de informações. O Salgueiro, desde o ano passado, parece que decidiu abandonar o estilo de sambas "oba-obas", que refletiam a eterna tentativa de repetir o sucesso do "Ita", de 93. Com o sucesso da composição de 2011, uma das melhores do ano, os compositores da Academia resolveram investir mais na qualidade melódica e textual, e o resultado foi uma das melhores safras recentes da escola.

O único pecado na letra do samba é o verso "é carnaval, é carnaval", mais pobre que o conjunto, sem uma necessidade específica. O trecho seguinte, no final da segunda parte, é um dos mais bonitos. O refrão do meio não é muito elaborado, sendo bem curtinho e com versos pouco desenvolvidos. Mas acaba sendo um dos trechos mais fortes em melodia.

A melodia, aliás, também é muito melhor que a dos sambas que o Salgueiro vinha apresentando. Novamente, a exemplo de 2011, mostra que os compositores não estão mais se prendendo ao modelo "Ita". O refrão do meio, como foi dito, é uma das partes de maior destaque, muito empolgante e explosivo. Mas empolgação com qualidade, afinal é possível aliar as duas características. A segunda parte também é muito forte, com um variações muito boas no ritmo de forró nos versos "oh meu padinho venha me abençoar/ meu santo é forte, desse cão vai me apartar". O refrão de baixo também se destaca melodicamente, sendo bastante explosivo.

O enredo está bem abordado, sendo fácil identificar personagens típicos, como Lampião e Antônio Conselheiro, e histórias da literatura de cordel, como "Os Doze Pares de França" e "O Pavão Misterioso". Na cabeça do samba está a imagem da feira, onde são vendidos os cordeis, dando uma boa sequência lógica à narrativa do enredo, apesar dos versos não serem sempre encadeados. Em alguns momentos há um "que" de Unidos da Tijuca, onde o desfile poderá proporcionar uma melhor compreensão, apesar de não ser crucial na interpretação.

Muito bom tecnicamente, fácil de cantar e sem perder a animação característica da escola, o Salgueiro deve emplacar mais um sucesso no Carnaval. Seguindo o lema da escola, a obra da Academia para 2012 não é melhor nem pior que as demais, é apenas diferente e muito boa.

ACADÊMICOS DO SALGUEIRO - 2012




Enredo: Cordel branco e encarnado
Compositores: Diego Tavares, Dílson Marimba, Domingos PS, Marcelo Motta, Ribeirinho e Tico do Gato

Sou "Cabra da Peste"
Oh, minha "fia", eu vim de longe pro Salgueiro
Em trovas, errante, guardei
Rainhas e reis e até heróico bandoleiro
Na feira vi o meu reinado que surgia
Qual folhetim, mais um "cadim, vixe maria!"
Os doze do imperador
Que conquistou o romanceiro popular
Viagem na barca, a ave encantada
Amor que vence na lenda
Mistério pairando no ar

Cabra macho justiceiro
Virgulino é Lampião
Salve, Antônio Conselheiro
O profeta do sertão


Vá de retro, sai assombração
Volta pra ilusão do além
No repente do verso
O "bicho" perverso não pega ninguém
Oh, meu "padinho", venha me abençoar
Meu santo é forte, desse "cão" vai me apartar
Quero chegar ao céu num sonho divinal
É carnaval! É carnaval!
Salgueiro, teus trovadores são poetas da canção
Traz sua corte, é dia de coroação
Não se "avexe" não

Salgueiro é amor que mora no peito
Com todo respeito, o rei da folia
Eu sou o cordel branco e encarnado
"Danado" pra versar na Academia

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Samba-enredo 2012 - Renascer de Jacarepaguá



O samba que dará o tom do desfile da Renascer em sua estreia no Grupo Especial foi composto por Adriano Cesário, Claudio Russo, Fábio Costa e Isaac. Na mediana safra da escola, era a melhor opção, inclusive sendo indicado como o favorito pelo Carnaval de Avenida.

A letra da composição era a mais poética da disputa. Um bom trabalho dos compositores para um enredo difícil e pouco abrangente. Apesar da vida do artista plástico Romero Britto ser um tema original e inédito, ficou nítido na sinopse a falta de assunto para preencher um desfile inteiro de Grupo Especial. E apesar da dificuldade em transformar as passagens da vida de Romero em imagens poéticas, o resultado do samba escolhido foi bastante satisfatório. O termo "pop arte", no início da segunda parte, destoa um pouco dos demais. Poderia não ter sido utilizado tão diretamente, apesar de ser o foco do trabalho de Romero. Uma das partes mais bonitas é o trecho sobre Recife, no final do samba.

É, inclusive, curiosa a menção à terra natal de Romero apenas no final, já que, normalmente, os enredos biográficos se iniciam pela cidade dos homenageados. Nesse caso, aparece no final representando a saudade do pintor, uma boa sacada. A relevância de Romero Britto não está em algum grande feito de sua vida e sim em suas obras. O modo como ele as produz ganhou um grande destaque, sobretudo na primeira parte. Assim como na sinopse, o samba tenta dar um ar de divindade ao talento de Romero em passagens que, apesar de bonitas, soam um tanto quanto forçadas. A exposição de seus trabalhos em Paris talvez seja o maior dos fatos retratados pelo enredo, e é citado no verso "tal qual as telas na cidade luz". A falta de assunto acaba resultando em versos que não são muito contextualizados, como "dar ao papel a emoção que seduz" ou "o faz buscar em cada cor o infinito".

A melodia segue os moldes das últimas composições apresentadas pela Renascer, mais pesada e com variações marcantes. A primeira aparece logo no primeiro verso, começando o samba com bastante força. O quarto verso do refrão do meio também apresenta um desenho diferenciado, apesar do refrão em si não ser tão expressivo. Da metade para o final da segunda parte, o samba volta a ganhar mais força, terminando de forma emocionante no trecho sobre Recife, que é o melhor momento da obra. A passagem para o refrão principal é bem feita e este, por sua vez, também se destaca no conjunto. Empolga e é textualmente interessante, principalmente no verso "no tom da folia vou me apresentar", que também pode simbolizar a apresentação da escola ao público, já que muitas pessoas podem não conhece-la por não ser tão famosa e nunca ter desfilado no grupo principal.

Com a sempre dura missão de abrir os desfiles, a Renascer tem um samba até mais pra baixo do que o recomendado. Mas é uma obra de qualidade, que faz jus à sua safra. Quem já acompanha a algum tempo o trabalho da escola no Grupo A, sabe que, em matéria de samba, ela é sempre um dos destaque do ano. Considerada promissora, terá, enfim, a chance de mostrar seu valor entre as grandes e apresentar a "galeria Jacarepaguá" para o mundo.

RENASCER DE JACAREPAGUÁ - 2012




Enredo: Romero Britto, o artista da alegria dá o tom na folia
Compositores: Adriano Cesário, Claudio Russo, Fábio Costa e Isaac

Esse dom que faz o artista imortal
É luz do céu para pintar
A Renascer no carnaval
O faz buscar em cada cor o infinito
Acreditar, Romero Britto
Que Deus mora na inspiração
Em páginas, arte que viu
O inverso se abriu, presente de irmão
Contraste que se refletiu
Universo do artista, outra direção

Nas cores de sua aquarela
Valores brincando na tela
Aquele abraço desenhar
Gira o compasso, eu quero outra vez sambar


Sensibilidade, pop arte ao mundo espalhou
Sorrir é brilhar
Dar ao papel a emoção que seduz
Eu sei que a arte vai reinar
Tal qual as telas na cidade luz
Do alto do morro o redentor abraça o gênio
Que hoje repinta esta cidade
Moleque, Recife é saudade
Há tantos meninos assim
Querendo um sonho
Na liberdade das cores sem fim

Pintor da alegria, calor da emoção
Pintou Renascer no meu coração
No tom da folia vou me apresentar
Na galeria Jacarepaguá

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Samba-enredo 2012 - Estação Primeira de Mangueira


Em 2012, a Mangueira vai festejar na Sapucaí com o samba de Lequinho, Igor Leal, Junior Fionda e Paulinho de Carvalho. Um dos favoritos desde o começo, inclusive sendo a aposta do Carnaval de Avenida, a parceria conhecida durante a disputa como 65-A derrotou outras fortes composições na final. Alguns dias após o resultado, a escola divulgou a letra e o áudio oficiais, com algumas mudanças. Algumas boas, outras nem tanto.

Sem excessos de poesia, mas com qualidade, a letra exalta a escola e o Cacique de Ramos, sendo condizente com a melodia animada. O começo da segunda parte é um dos melhores momentos, com a repetição da palavra "sim" em alusão à música "Doce Refúgio". O verso que lembra o Bafo da Onça consegue expressar muito bem a rivalidade entre os blocos. Entre as mudanças na letra original, está a inclusão da palavra "novo" em "salve o novo Palácio do Samba". Uma alteração desnecessária, que acaba atribuindo um caráter político a um verso que era apenas de exaltação, além de se distanciar do enredo. Oxóssi, orixá de grande relevância na história do Cacique, também foi incluido na letra. No refrão do meio, "já começou a festa" se tornou "a Surdo Um faz festa", uma menção à bateria da escola. Um pouco forçado e também desnecessário.

Em relação a sinopse, o samba omite o início do enredo, que fala sobre a vinda dos escravos, começando a partir do sonho do escravo à sombra da tamarineira. Claro que não é possível incluir tudo o que está na sinopse no samba, até porque a da Mangueira era bem grande. Mas esse trecho parecia ser relevante, já que a maioria das demais obras da safra possuia algum verso sobre ele. No mais, a obra faz boa abordagem do enredo e consegue dar destaque ao Cacique, que, na sinopse, parecia coadjuvante. O "na palma da mão" do refrão principal foi um pouco criticado, pois podia dar uma ideia de "oba-oba". Mas, na verdade, é um verso bastante contextualizado, já que o gesto de bater palma é bem característico das rodas de samba do Cacique.

A melodia, como já foi dito, é bastante animada e contagiante, como não poderia deixar de ser em um samba sobre um bloco, ainda mais o Cacique de Ramos. Mesmo assim, é muito boa, com nuances e variações bem trabalhadas. No refrão do meio, a mudança do verso "firma o batuque que eu quero sambar" para "firma o batuque, quero sambar" é muito bem-vinda, já que na primeira versão o trecho era quase um trava-língua devido à melodia acelerada. Destaque absoluto para o "hey hey hey" no final da segunda parte, um recurso simples mas que deu um diferencial e um charme a mais à composição. Explosivo como um todo, dificilmente não proporcionará um desfile empolgante.

No mais, o samba tem a cara da Mangueira. E quando a Mangueira vem com cara de Mangueira, vem forte. A seguir, o áudio divulgado pela escola, já gravado pelos intérpretes oficiais da verde e rosa e com as modificações feitas na letra e na melodia.

ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA - 2012




Enredo: Vou festejar! Sou Cacique, sou Mangueira
Compositores: Lequinho, Igor Leal, Junior Fionda e Paulinho de Carvalho

Salve a tribo dos bambas!
Onde um simples verso se torna canção
Salve o novo Palácio do Samba!
O “Doce Refúgio” pra inspiração
Debaixo da tamarineira
Oxóssi guerreiro me fez recordar
Um lugar… O meu berço num novo lar
Seguindo com os “pés no chão”
“Raiz” que se tornou religião
Da boêmia, dos antigos carnavais
Não esquecerei jamais!

Firma o batuque, quero sambar… Me leva!
A Surdo Um faz festa!
Esqueça a dor da vida
Caciqueando na avenida


Sim…
Vi o bloco passando, o nobre rezando e o povo a cantar
Sim…
Era um nó na garganta ver o Bafo da Onça desfilar
Chora, chegou a hora eu não vou ligar
Minha cultura é arte popular
Nasceu em "Fundo de Quintal"
Sou imortal e vou dizer
Agonizar não é morrer
Mangueira fez o meu sonho acontecer
O povo não perde o prazer de cantar
Por todo universo minha voz ecoou
Respeite quem pode chegar
Onde a gente chegou!

Vem festejar, na palma da mão
Eu sou o samba, “a voz do morro”!
Não dá pra conter tamanha emoção
Cacique e Mangueira num só coração

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Samba-enredo 2012 - Paraíso do Tuiuti


Os compositores do samba que a Tuiuti levará para a avenida em homenagem a Clara Nunes são Adauto Alves, Anibal, Jurandir, Pelé e Reza. A parceria composta por grandes campeões da escola era a favorita na final, apesar da concorrência forte de outras boas obras que a escola possuia em sua safra. O Carnaval de Avenida destacou este samba como um dos melhores, apesar de não apontá-lo como vencedor.

A letra é bastante burocrática, sem grandes passagens, mas correta. A poesia utilizada é um tanto quanto previsível, fazendo com que não emocione. Trechos quase convencionais, como "que felicidade, meu Tuiuti vai revivendo a emoção", "a natureza sorrindo fazendo a vida florescer" e "um ser de luz a iluminar meu caminhar", além de algumas rimas pouco elaboradas, acabam empobrecendo a obra. Os dois melhores momentos são os refrões, sobretudo o principal, que proporciona uma bela imagem de Clara Nunes em forma de estrela sorrindo para o morro do Tuiuti. No verso "e o povo vai fazer seu ritual" a conjunção "e" poderia ser suprimida para evitar repetição, já que também está presente no verso seguinte.

Apesar da bela sinopse ter um caráter mais biográfico, o samba não segue esta linha, sem se aprofundar muito na vida de Clara Nunes. Apenas fala sobre ela, como uma ode. Também não aborda muito a aura mística em torno da vida de Clara Nunes, preocupando-se mais em exalta-la. Um detalhe curioso são as repetidas menções ao canto e à voz de Clara, que aparecem três vezes na letra: "eternizando a bela voz que não dá mais pra esquecer", "e lá no infinito seu canto ecoou" e "seu canto traz a paz ao coração". É preciso cautela para saber até que ponto tal superficialidade da letra pode ser prejudicial.

O grande benefício que o samba trará a escola é ser pra cima e possuir uma melodia bem leve. Como a Tuiuti será a primeira a desfilar no sábado, precisará de um samba que anime a Sapucaí para que sua apresentação não seja fria. Tecnicamente é uma melodia bastante linear, se destacando mais nos dois refrões. O principal é explosivo e empolgante e o central é mais pra baixo, com uma variação muito bonita. Nas demais partes, pouca ousadia ou trechos mais marcantes.

Priorizando a funcionalidade, o samba da Tuiuti não deverá ser um dos destaque do ano, apesar de não ser ruim. Mas a escola deve realmente ter a permanência no Grupo A como prioridade antes de pensar em voos mais altos, e, pra isso, a obra é mais adequada para uma boa fluência do desfile. Será o terceiro enredo biográfico consecutivo apresentado pela escola, depois de Eneida em 2010 e Caetano Veloso em 2011, com o qual foi campeã do Grupo B.

PARAÍSO DO TUIUTI - 2012




Enredo: A tal mineiras
Compositores Adauto Alves, Anibal, Jurandir, Pelé e Reza

Oh, quanta saudade
Da tal mineira... Doce inspiração
Que felicidade!
Meu Tuiuti vai revivendo a emoção
Um ser de luz
A iluminar meu caminhar
Quem nos conduz
Nesta avenida é o sabiá
A natureza sorrindo
Fazendo a vida florescer
Eternizando a bela voz
Que não da mais pra esquecer
É agua no mar... É maré cheia
Com a proteção de Oxalá, clareia

E lá no infinito seu canto ecoou
Morena mineira, mestiça raiz
Encontro das raças, rufar do tambor
Trazendo axé pra nos fazer feliz


(Mas vem)
Vem de longe a batucada
Entre morros e vielas
Salve a deusa, salve o samba
Encantando a passarela
Seu canto
Traz a paz ao coração
É mais que uma prece, é devoção
E o povo vai fazer seu ritual
E na simplicidade
Acende a chama do meu carnaval

Hoje eu vi uma estrela... No céu
Sorrindo pro morro do meu Tuiuti
É Clara guerreira, num gesto de amor
Iluminando a Sapucaí!!! (Eu vi! Eu vi!)